"Sei que aquilo que sou hoje te devo a ti e a mais ninguém. Ensinaste-me a amar a partir do momento em que me fizeste sentir incondicionalmente amada. Se ao menos as pessoas soubessem - ou quisessem minimamente saber - aquilo porque passaste para chegar onde chegaste, para teres o que tens... A vida sempre foi demasiado injusta contigo e só eu sei o quanto chorava quando me contavas histórias reais da tua vida.
Por um lado sei que foram essas histórias que te tornaram na pessoa que eu tanto amo hoje e que sempre amei toda a minha vida. Ainda esta semana sonhei que morrias e acordei com falta de ar. Não posso imaginar um mundo do qual não faças parte. Aliás, como pode o mundo continuar a girar se não te tiver? Enriqueces-me, a mim e a tudo em que tocas, a tudo em que colocas um pouco de ti. Somos todos mais ricos pelo simples facto de existires e eu só lamento que tão pouca gente se aperceba disso enquanto pode, enquanto ainda cá estás, porque a vida não é eterna e eu sei que os segundos não param de contar.
Foste pai e mãe ao mesmo tempo, foste quem me passou os verdadeiros valores, os correctos, os decentes. Foste o meu exemplo e ainda hoje o és. Guerreira é o teu primeiro nome, não no BI mas para mim. Fazes-me rir porque passem os anos que passarem tens um humor inabalável. Temo por ti quando a tua memória começa a falhar, quando chove e eu sei que tens de ir à rua, quando faz frio e eu só penso se estarás bem, se não era melhor estares aqui connosco. Mas eu sei que não posso ser egoísta, quem te tirar a liberdade a privacidade de continuares na tua casinha mata-te e eu não te quero matar, só quero que sejas eterna e, para mim, sempre serás.
Sempre me apoiaste, nunca me tentaste incutir obrigações nem sonhos nem objectivos que não eram meus - ok, tentaste converter-me ao cristianismo mas eu sei que não o fizeste por mal, apenas faz sentido para ti que toda a gente acredite no teu Deus e nem sendo ateia trocava todas as noites que passámos juntas a rezar ao Anjo da Guarda porque de outra forma não me deixavas ir dormir.
Ainda me lembro quando me proibias de ver Dragon-Ball porque te irritava que eu fosse para a rua feita maluca andar ao soco com inimigos invisíveis que tu não vias e da vergonha que sentias quando alguém conhecido passava por nós na rua e eu andava «aos pinotes» como lhe chamavas. Mas tudo o que eu queria na altura, era o que quero hoje: proteger-te, mesmo que tu não vejas a ameaça iminente, mesmo que aos teus olhos o mal seja invisível. Eu vejo-o, vejo-o todos os dias quando saio de casa e quando oiço as notícias enquanto janto. Este mundo não é para pessoas como tu e por isso eu preciso de olhar por ti, tal como tu olhaste - e ainda olhas - por mim.
Sei que um dia não vais estar cá, que vou querer o teu abraço e não o vou encontrar, que vou querer sentir o teu cheiro e ele não vai estar no ar como é normal. E sei que isto é pouco para o muito que te quero dizer e para o muito que te devo mas quero que saibas que me educaste bem, que tenho orgulho na pessoa que sou hoje porque tenho orgulho na pessoa que sempre foste e me ensinaste a ser. Que tudo o que sou te devo a ti e que sou consciente disso. Que nada do que fizeste por mim me passou ao lado, nem mesmo as palmadas que me davas e que eu não gostava mas que hoje percebo que faziam sentido e até por essas te agradeço. Obrigada, por tudo e por muito mais mas acima de tudo por seres tu e por existires na minha vida.
Só para que saibas, tu e o mundo inteiro, que te amo Avozinha e que por muito que a nossa vida na terra seja efémera o meu amor por ti é eterno."
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